O que o tempo nunca disse

XXII

Confissão de uma Saudade

Guardei o teu beijo, o teu abraço...
Confesso!
Guardei os teus sermões, a tua grossura...
Amei-os, confesso!
Guardei os teus gemidos, e as marcas das tuas unhas...
Confesso!
Guardei  o teu cheiro pela casa e a tua bagunça...
Ainda cá estão, confesso!
Guardei e ainda alimento o teu gato...
Meu companheiro, confesso!
Guardei as tuas desculpas, e a tua inocência...
Guardei e costumo a ver os nossos Snaps, Stories, fotos e vídeos
Guardei as tuas cuecas, calcinhas, soutiens
Guardei as chinelas, as jeans, as camisas da Burberry
As pulseiras, relógios, brincos e fios de ouro
Guardei tudo o que pude de ti!
Se sinto saudades tuas? Sim, confesso!
Confesso tudo e mais pouco.
Confesso que ainda durmo no nosso quarto, despido e aposentado em memórias e cheiros
As imagens aparecem nitidamente tal como se ainda estivesses aqui...em vida
Às vezes o gato mal consegue comer, sair de casa e percorrer umas milhas, tal como fazia contigo
Aliás, todos nós sentimos a tua falta. Eu, o gato, a casa, as flores, e o filho que nunca tivemos
Eu entendo a tua partida
Mas o vazio que deixaste é indubitável
Pois ele ainda está fresco e apalpável...

X

Oásis

Adoro quando nos encontramos ao acaso
quando sentimos a presença um e do outro na encruzilhada de olhares
e nos cumprimentamos levantando a mão fazendo um "Olá"
Perguntamos o estado um do outro com os mesmos olhares,
acenando a cabeça para as laterais
dizendo "Mais ou Menos, E que não consigo ficar sem ti por perto"
[...]
E assim as nossas conversas vão fluindo...com ligeiros sorrisos
Até nos aproximarmos, e trocarmos um longo e forte abraço
Dar-te um beijo na testa e sentir cheiro dos teus cachos
Destarte, perceber que o meu mundo orbita no teu oásis.

X

À Deriva

Tentei viajar pelo país afora
Conhecer faces novas
Sentei-me com monges
Tribos
Estudei sobre religião
E fiz do meu corpo um canal espiritual
Escalei montanhas e diversas paisagens
Aventurei-me em corpos estrangeiros sem bilhetes de passagem
Mas nunca
Nunca mesmo
Me senti tão perdido
Tal como fiquei quando vi o meu reflexo
Nos teus olhos
à deriva nos devaneios da vida
Tentando preencher a saudade idealizada
Nos cantos mais tristes da vida
Com viagens marcadas só de ida...

VII

Bilhete de Passagem

Uns viajam para esquecer, eu viajo para recordar
Quer das tristezas, quer das felicidades
Para espairecer, me achar
Tanto das vivências, quer das afinidades

Diga-se de passagem que o futuro actual é a miragem do passado
Por isso, escolho diariamente viajar na reminiscência do nosso amor
E como preço tenho vislumbres das tempestades e turbulências
Rezando que os ventos tragam nos seus sopros o teu odor
Para que, pela última vez, possa me confortar nas recordações,
aquando sentávamos no pátio
Falando por horas afinco
Eu e as minhas anedotas
Tu e os teus sorrisos
Dois rostos cheios de vincos

É também adormecer nos sopros dos ventos
E lembrar daquilo tudo que nos aconteceu
Dos abraços que não demos, das discussões que tivemos
O que somos agora é o fruto de um adeus mal dado
De um amor mal retornado
E inclusive do apego forçado

Bilhete de Passagem (def.)
é quando deixo o presente para embarcar nas tuas histórias
Descalço, correndo por ti, entre as nebulosas trilhas
Na falta de guia, vou seguindo o relógio sem me preocupar com as horas
Falando sobre planos, até que se faça chover utopias.

VII

Amor sem destinatário

É o caso dos acasos
Do destino mal destinado
Sem remetente, sem destinatário
O amor mal premeditado que vive no açúcar amargurado

São tantos encantos,
Que no entanto
A gente deixa por aí...num canto
E quando alguém o encontrar
A gente vai tentar lhe reivindicar através de prantos...

Há tanta coisa absurda
Mas ainda assim o mundo nos julga
Pela pessoa que a gente se debruça
E escolhe em ser o seu pintor:
Pegar nos seus defeitos e torná-los em algo maior...

Amor vem, amor vai
Somos frutos do acaso
Nascidos sem mãe sem pai
Num mundo vulgar
Sem alguém que nos possa educar o propósito de realmente amar!

V

Souvenir de uma Saudade

Às vezes, para matar as saudades, coloco uma das almofadas no peito e fico a imaginar você adormecida nele
Fico preso a acompanhar o teu lento respirar
Caindo em vertigens ao apreciar os teus cabelos a deslizarem entre os meus dedos como se fossem areia do mar
Desmaio em sonhos quando o meu coração escuta os teus batimentos cardíacos
Decifrando meticulosamente a variação de bombeio em cada teu sentimento perdido

Sinto falta de te ver a brincar no chuveiro
Vendo a água a deslizar pelo teu corpo inteiro
Saindo das montanhas dos teus seios
até perder a altitude nas cascatas das tuas pernas
Desaguando na Foz do Banheiro

As viagens não param até que eu também caia no sono.
E quando acontecer, ainda estaremos juntos, pertinhos e aconchegados
Deitados nesta mesma minúscula cama, com lençóis brancos amarrotados
Os nossos pés, que nem estrelas, juntinhos e entrelaçados
E eu a fazer cafuné nesses teus pequeninos lábios...

"Souvenir é sentir o teu perfume nestas fronhas quando tu já não estás por perto"

II

Words I fail to say, But my heart yells them

There are things we never forget
Like a hug
The very first kiss
The body in the bedsheet
Like labyrinth, knowing
Every corner of it

There are things meant to be unforgettable
Like the face of our childhood love
Her doll face in a mermaid body
The female innocence

There are things that are never enough to be said...
Like "I love you"
"I miss you"
"I wish you could be here"

I am a poet
But these are the words that pains me the most to say
And
There are words like "I'm sorry"
Words like these that my heart yells
Everytime
Everyday
That it should be years now
Without stopping...