XCII

On-line

De manhã, o relógio marca 7hr
A luz matinal vai entrando,
escapando pelo buraco da janela
coberto por cortinas semiabertas

Cama desarrumada, lençois amarrotados
Somos cumprimentados pela luz fraca
que aterra sobre os nossos corpos
maculados, despidos como anjos

Que corpo é este, tão terno e afável, que jaz sobre o meu?
Que alma febril é esta, que me faz companhia nesta cama tão gelada como o céu?

Receio de acordá-la, mas por outro lado anseio por conhecê-la
Anseio por saber como chegou nesta cama,
e como durante a noite
ousou despir a minha solitária alma

Enfim
A calma já não reside em mim,
Chá de camomila para me acalmar,
pois peito ainda sente a repercussão daquele beijo

O coração ainda sente as vertigens
causadas pela lubricidade daqueles lábios,
rosáceos, carnudos
softs como manteiga derretida no canudo

Os nossos lábios,
como navios em alto mar
sem bússola sem vento
embateram-se um ao outro

As línguas à deriva em todas as partes do corpo,
apreciando cada onda, cada mergulho
até cair nas profundidades
das nossas profanas concavidades
Onde instigamos os gostos, odores e orgulhos
até nos afundarmos no orgasmo mútuo

Ai...
Quem é?
Mas quem é?
Será que algum dia te vou voltar a ver?

Penso nestas questões todos os dias, todas as noites
Esperando pelo momento em que entras on-line e possas me dizer novamente o teu nome...

XCII

Tudo Vale!

Tudo vale!
Nesse jogo não há batotas
Tua vitória é minha vitória
Destarte, não haver derrotas

Tudo vale!
No tapete ou na cama
Na cozinha ou na sala
No quarto das crianças
ou mesmo na varanda

Aonde quer que seja,
o importante mesmo é fazer
Mas que se faça bem!
O que é mal feito causa arrependimentos
Então façamos, meu bem

Tudo vale!
Pegar na peruca ou rasgar a camisa
Com ou sem camisinha
Rápido e forte
Ou gostoso e lento

Tudo vale!
Desarrumar a casa ou quebrar a mobília
Deixar que os vizinhos chamem a policia
Em tempos de tréguas ou intrigas
Temos de saber que haverá sempre carícias

Aonde quer que seja,
o importante mesmo é fazer
Mas que se faça bem!
O que é mal feito, causa arrependimentos
Então façamos, meu bem

Até porque,
nesse jogo vale tudo
Só não vale mesmo
é acordar as crianças.

XCI

Amor sem destinatário

É o caso dos acasos
Do destino mal destinado
Sem remetente, sem destinatário
O amor mal premeditado que vive no açúcar amargurado

São tantos encantos,
Que no entanto
A gente deixa por aí...num canto
E quando alguém o encontrar
A gente vai tentar lhe reivindicar através de prantos...

Há tanta coisa absurda
Mas ainda assim o mundo nos julga
Pela pessoa que a gente se debruça
E escolhe em ser o seu pintor:
Pegar nos seus defeitos e torná-los em algo maior...

Amor vem, amor vai
Somos frutos do acaso
Nascidos sem mãe sem pai
Num mundo vulgar
Sem alguém que nos possa educar o propósito de realmente amar!

LXXXV

Oásis

Adoro quando nos encontramos ao acaso
quando sentimos a presença um e do outro na encruzilhada de olhares
e nos cumprimentamos levantando a mão fazendo um "Olá"
Perguntamos o estado um do outro com os mesmos olhares,
acenando a cabeça para as laterais
dizendo "Mais ou Menos, E que não consigo ficar sem ti por perto"
[...]
E assim as nossas conversas vão fluindo...com ligeiros sorrisos
Até nos aproximarmos, e trocarmos um longo e forte abraço
Dar-te um beijo na testa e sentir cheiro dos teus cachos
Destarte, perceber que o meu mundo orbita no teu oásis.

LXXXV

Bilhete de Passagem

Uns viajam para esquecer, eu viajo para recordar
Quer das tristezas, quer das felicidades
Para espairecer, me achar
Tanto das vivências, quer das afinidades

Diga-se de passagem que o futuro actual é a miragem do passado
Por isso, escolho diariamente viajar na reminiscência do nosso amor
E como preço tenho vislumbres das tempestades e turbulências
Rezando que os ventos tragam nos seus sopros o teu odor
Para que, pela última vez, possa me confortar nas recordações,
aquando sentávamos no pátio
Falando por horas afinco
Eu e as minhas anedotas
Tu e os teus sorrisos
Dois rostos cheios de vincos

É também adormecer nos sopros dos ventos
E lembrar daquilo tudo que nos aconteceu
Dos abraços que não demos, das discussões que tivemos
O que somos agora é o fruto de um adeus mal dado
De um amor mal retornado
E inclusive do apego forçado

Bilhete de Passagem (def.)
é quando deixo o presente para embarcar nas tuas histórias
Descalço, correndo por ti, entre as nebulosas trilhas
Na falta de guia, vou seguindo o relógio sem me preocupar com as horas
Falando sobre planos, até que se faça chover utopias.

LXXXV

Uma Morte Anunciada

Aos olhos peregrinos
sou um mundano moribundo,
atravessando buracos profundos,
pouco se lixando
com as repercussões do futuro
 
Que nem uma bela poesia,
encarcerada, dentro de uma caixa,
sem vida, perdida,
sem chance de ser encontrada,
vivo na mais abismal escuridão,
de segunda a domingo
em aguda depressão,
perguntando-me o que seria <<se>>
se os planos não tivessem falido...

Às vezes desejo morrer,
mas são tantos problemas
que ela acaba se tornando
a última na lista de afazeres

Então, perece uma nova esperança,
nasce mais um sentimento de vingança
Este, porém, é engolido pela garganta,
ficando inerte, para sempre, nas entranhas

Nunca perdi ninguém na vida
Não obstante a morte e o futuro
serem os meus maiores medos
A morte dos pais, dos irmãos,
dos amigos e dos filhos
O medo da carreira fracassada,
de amar e não ser amado
O medo do divórcio,
e outras coisas do quotidiano...

Rumo numa jornada solitária,
enfrentando fantasmas na hora do dia
Sinto que minha presença
causa repúdio à luz ensolarada...
Pudera! Sou um homem sem crença,
cético de tudo que me entra na cabeça

Os comprimidos,
que antes ajudavam-me a dormir
e suavizar o meu fim,
hoje já não fazem efeito algum
Então, a prescrição do doutor passou a ser:
<<sorrir>>

O sorriso, lentamente,
transformou-se em risadas
para esconder o choro seco e as mágoas
Infelizmente nessas risadas, sou uma corrente rasa...
Que adianta?! Se tudo que julgo passar, não passa!!

LXIX

The Moon Behind The Grey Clouds

Her life it's like the vast sky full of clouds in the night's eve.
There is no stars, there is no shine.
There is nothing beautiful in it.
Only the fresh winds along with sad memories. So do I when I look at her.
I see nothing but her pale face like a moon hidden behind grey clouds.
Shy of its own beauty.
Scared with the scars she was blessed with
My sweet darling. Your life is like the sky full of clouds in the night's eve. You, the moon, decide if you keep glowing or not.
Doesn't matter what you do, or what you feel. Let the spectrum of your lights reflect in the water.
You shall set free the lights present in the holes of your body.
You shall ignore the ones that do not appreciate you the way I do
Because, in the darkest nights I will not lose my mind, nor I will lose you...
Just keep the lights of your holes on.
In case if I get lost in the water that your spectrum reflects on.

LXIX

Cabernet Sauvignon

Degustar é ter a tua boca como decanter
E ter o Sommelier em minha merçê
Deixar aromas serem libertados que nem combustão
Sabores picantes que nem comichão
Em cada beijo, em cada degustação
O teor alcoólico é a suculenta saliva
Pertinentes dessas almas desconhecidas
O dialecto é o contacto das linguas
E são os nossos gestos, a intensidade do calor
Que ditam a textura e a cor
Do nosso tão amado Cabernet Sauvignon.
LXIII

Um Desabafo Académico

Em véspera de projectos e defesas, pessoas lindas e formosas, irrita-me quando alguém me pergunta se não irei defender. E caso responder que sim, hão de perguntar o porquê de estar vestido de tal forma.
É uma pergunta não obstante curiosa, mas no entanto ridícula. E aí me pergunto:
"O que será o mais importante? A minha vestimenta ou o meu trabalho? Aquilo que carrego no corpo ou na cabeça?"
De qualquer forma, de nada me adianta pensar na vestimenta que irei de usar, se não consigo fazer o meu programa compilar.
É tão simples assim porra!