... quem ela era... quem ela foi...

Decidi fazer esta nota quando descobri que passava mais tempo a escrever sobre uma paixão perdida...
E meio que apanhei jeito em escrever sobre outras mulheres também. :)

XVIII

Oásis

Adoro quando nos encontramos ao acaso
quando sentimos a presença um e do outro na encruzilhada de olhares
e nos cumprimentamos levantando a mão fazendo um "Olá"
Perguntamos o estado um do outro com os mesmos olhares,
acenando a cabeça para as laterais
dizendo "Mais ou Menos, E que não consigo ficar sem ti por perto"
[...]
E assim as nossas conversas vão fluindo...com ligeiros sorrisos
Até nos aproximarmos, e trocarmos um longo e forte abraço
Dar-te um beijo na testa e sentir cheiro dos teus cachos
Destarte, perceber que o meu mundo orbita no teu oásis.

LVI

A Rosa e os seus Espinhos

Constelação (def.)  é conjunto de estrelas
Formado pelos espinhos do teu rosto.
Uns mais pequenos, outros mais grossos
Alguns cintilantes e extravagantes, outros envergonhados e tímidos
Uns mais próximos, outros mais afastados
Alguns agressivos e revús, outros amenos e de baixo temperamento
Cada um distinto na sua complexidade natural. Aquele que não sabe o valor deles
jamais compreenderá o valor da tua beleza, e por conseguinte o do teu amor.

- Assim disse o Beija-Flor à Flor, que chorava incessantemente ao se deparar no espelho preparando-se para colocar a maquiagem.

Como já previa o Beija-Flor, a pobrezinha teve o plano arruinado pelas lágrimas que deixaram o seu rosto numa completa lástima.
Entretanto, o Beija-Flor segurou no braço da cadeira e girou (360°) para frente do espelho. Puxou-lhe o cabelo para trás, de seguida pousou-lhe as mãos pelos ombros, inclinou-se no lado direito da pobrezinha e quando os seus olhares fixaram-se através da reflexão do espelho ele disse-lhe de forma rítmica e confiante:

"Teus olhos refletem o mar de lágrimas que em ti estão aprisionadas
à espera que se façam tempestades de choros para libertar a alma constipada
Transborda-te mulher!
Chorar não faz mal a ninguém
Não serás a primeira e tão pouco a última a sentir a lâmina desta depressão inefável
Queres falar sobre isso? Não consegues? No worries.
Serei a tua almofada companheira para enxugar as lágrimas e aliviar o luto
E se não passar agora, criamos um plano juntos para vencermos as probabilidades do futuro."

III

Devoradora de Livros

Ela é cidadã do mundo,
o seu passaporte são livros...
Vermelhos, azuis,
verdes, pretos,
brancos ou amarelados.
Alguns destes são novos,
velhos, de bolso ou grandes.
Certeza há, que todos
são diplomáticos.


Apesar de gostar de café, o chá verde sem açúcar com um pitada de mel e limão, é a combinação ideal para uma manhã de leitura.
Ela faz de conta que é uma rosa à mercê dos ventos. Ora navegando entre o céu e o mar, ora atravessando dunas e montanhas. De tanta imaginação, ou ela adormece com o livro no outro lado da cama, ou não se apercebe da chávena quente que repousa sobre as folhas do livro, fazendo com que elas vão ganhando áurea em forma de manchas.


Não há necessidade de impor metas. Ela não deve ser forçada, idem. Quando a leitura é prazerosa, ela é naturalmente incentivadora. - dizia ela.

Ela possui livros para tudo e inclusive para qualquer ocasião. Livros de cozinha, de empoderamento, elevação profissional, livros para se ler num sábado de praia, no banheiro, livros de bolso para se ler no candongueiro... até a Bíblia ela lia. 

Certa vez ao andarmos pela rua, avistou vários livros estendidos no chão a serem vendidos por um senhor com um pouco mais de meia idade. Virou bruscamente de direcção e quando lá chegou, pôs-se a contemplar pelos títulos para ver se reconhecia pelo menos um.
- Aha! - exclamou ela depois de algum tempo perdida e indecisa a olhar para tantos livros.
- Passa-me aquele, senhor. - disse ansiosa.
Ao segurar o livro, notei que era bastante amarelado, a capa estava murcha e a ceder aos bocados...
- Quero este! - gritou apreensiva, sequer ter acabado de ler o prefácio.
O senhor olhou para ela admirado pela sua energia. Então os dois puseram-se a olhar para mim. O senhor a querer receber o dinheiro e ela a querer levar o livro para a casa.
- Quanto custa? - perguntei eu extremamente hesitante.
- 3000kz.
- Não tenho o suficiente!
- Quanto tens?
- (olhei para a carteira) 2000kz... e com as moedas tenho (meti os dedos no bolso de moeda da jeans)... 2300kz.
- Eu tenho 1000kz.
- Não é suposto ser para o táxi?
- Não faz mal. 

Tendo já efectuado a compra, continuamos a descer pela Avenida Brasil. Uma vez mais, ela parou de repente. Abriu-o, deu um soprou e umas tapas. Revirou algumas páginas e de seguida encostou o livro no seu rosto e inspirou tão profundo como se fosse analgésico. De seguida, expirou lentamente apaixonada, como se contente estivesse pelo orgasmo causado.
 
E foi assim que aprendi algo interessado sobre ela. Que quanto mais poeirentos e velhos fossem os livros, mais saborosos e nostálgicos seriam os seus conteúdos